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Nota de Posicionamento

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    LAPP
  • há 9 horas
  • 4 min de leitura


Vivemos em um país marcado por números alarmantes de violência contra mulheres. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra milhares de casos de violência de gênero todos os anos. Apenas em 2023, mais de 1.400 mulheres foram vítimas de feminicídio, enquanto milhões sofreram algum tipo de violência física, psicológica ou sexual. Os dados também revelam algo ainda mais grave: muitas dessas vítimas são meninas e adolescentes.

Diante dessa realidade, o silêncio não pode mais ser uma opção.

Calar diante da violência é, ainda que indiretamente, permitir que ela continue acontecendo. Quando nos omitimos, criamos um ambiente em que o sofrimento das vítimas é minimizado, desacreditado ou invisibilizado.

Nos últimos dias, episódios envolvendo denúncias de assédio em nossa faculdade ganharam repercussão e trouxeram à tona uma discussão necessária: a segurança das mulheres nos espaços de formação, trabalho e convivência.

A universidade deveria ser, antes de tudo, um espaço de construção de conhecimento, de troca e de desenvolvimento humano. Situações como essas nos convidam a refletir sobre algo maior: como garantir que os ambientes acadêmicos sejam, de fato, espaços seguros para todas as pessoas, especialmente para as mulheres.

Mulheres ainda não estão plenamente seguras em diversos espaços da sociedade. Não estão seguras em hospitais, nem mesmo em momentos de extrema vulnerabilidade, como durante o parto ou sob sedação. Não estão seguras em ambientes religiosos, em instituições de ensino, em locais de trabalho ou até mesmo dentro de casa. A violência atravessa idades, contextos e territórios. Mulheres são violentadas quando recém-nascidas, quando jovens, quando adultas e quando idosas.

Diante disso, surge uma pergunta que não pode mais ser ignorada: o que estamos fazendo para interromper esse ciclo de violência?

Este mês carrega um significado histórico para a luta das mulheres. É um período que rememora a história de mulheres que perderam suas vidas lutando por direitos básicos, como dignidade, igualdade e condições justas de existência. Lembrar dessa história também é reconhecer que essa luta ainda continua.

A psicanálise nos ajuda a compreender que a violência não se sustenta apenas em atos individuais, mas também em mecanismos coletivos de negação. O psicanalista René Kaës (2014) descreve o conceito de pacto denegativo, um acordo inconsciente estabelecido dentro de grupos e instituições para manter certos conteúdos fora do campo da consciência. Nesse pacto, aquilo que ameaça a estabilidade do grupo — como abusos, injustiças ou violências — tende a ser negado, minimizado ou silenciado.

Quando relatos de violência são desacreditados, relativizados ou tratados como exagero, esse pacto se mantém ativo, levando a vítima a ser desmentida e produzindo condições psíquicas de sofrimento decorrentes desse desmentido (Ferenczi, 1933).

Por isso, é importante afirmar que não existe neutralidade possível diante da violência. A aparente neutralidade muitas vezes funciona como uma forma de preservação de estruturas que já colocam mulheres em situação de vulnerabilidade.

Enquanto coletivo acadêmico, entendemos que espaços de estudo e formação também são espaços políticos, no sentido mais fundamental da palavra: espaços de construção de sociedade. Isso significa que não podemos ignorar debates que dizem respeito à dignidade humana.

Historicamente, a sociedade tem reagido à violência contra mulheres com desconfiança e julgamento. Em vez de acolhimento, muitas vítimas encontram questionamentos e culpabilização. Pergunta-se o que a mulher fez, como estava vestida, por que estava naquele lugar — enquanto a pergunta que deveria ser feita é outra: por que a violência ainda acontece com tanta frequência?

Nesse sentido, a LAPP – Liga Acadêmica de Psicanálise e Psicologia – reafirma de forma clara que não compactua com qualquer forma de violência, assédio ou abuso.

Estamos ao lado de todas as mulheres que já passaram ou passam por situações de violência, dentro ou fora dos espaços acadêmicos. Sabemos que falar sobre essas experiências exige coragem e que, muitas vezes, o maior obstáculo não é apenas a violência em si, mas também o medo de não ser acreditada, acolhida ou respeitada.

Por isso, entendemos que escutar, acolher e legitimar a fala das vítimas é um passo fundamental para romper com a cultura de silenciamento que historicamente cerca a violência de gênero.

Também acreditamos que instituições têm responsabilidade na construção de ambientes seguros, com canais de escuta, acolhimento e medidas efetivas de prevenção.

Mais do que nunca, é necessário romper com o silêncio e com os mecanismos que naturalizam a violência.

Nesse sentido a população discente se sentiu abandonada pela própria Instituição. Enquanto a UNINOVE prontificou-se a expulsar o suspeito da violência contra as alunas, não houve nenhuma nota de repúdio, sequer houve alguma menção oficial. Entendemos que há sigilo por causa do tipo de processo, mas isso não significa que não possa se fazer um post geral, principalmente de cunho informativo e não de denuncia, para avisar as(es)(os) estudantes sobre o que fazer caso haja violência sexual dentro da Universidade. Não há cartilhas oficiais, não houveram falas nas salas, não houve nada para criar e reforçar um ambiente que promova a facilitação de acolhimento e simplesmente, para saber os canais para contatar. A LAPP já produziu uma cartilha para essas situações em 2022(??), de novo a partir de um evento parecido no qual também não houve nenhum posicionamento e campanha de prevenção geral para o corpo estudantil.

Que possamos construir espaços em que mulheres possam estudar, trabalhar, circular e existir sem medo.

 

Referências Bibliográficas:

 

BUENO, Samira et al. Feminicídios em 2023. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/fbsp/244 . Acesso em: 17 mar. 2026.

FERENCZI, Sandor. Confusão de línguas entre adultos e crianças. In: Ferenczi. Psicanálise III 1933. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

KAËS, Rene. As alianças inconscientes. Tradução: José Luis Cazarotto. São Paulo-SP: Editora Ideias e Letras, 2014.

KAËS, René. Os pactos denegativos. In: KAËS, René. Os acordos inconscientes: alianças, pactos e contratos. São Paulo: Ideias & Letras, 2014.

 
 
 

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